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MEIO AMBIENTE

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Maggi critica ingerência na Amazônia

Ontem, em Washington, o governador Blairo Maggi apontou que muitas pessoas falam da Amazônia sem conhecer a floresta


MAURICIO BARBANT/DC
Gov. Blairo Maggi

Governador Blairo Maggi é um dos palestrantes hoje em Washington, nos Estados Unidos, sobre o mercado de carbono

KEITY ROMA
De Washington - EUA

Ciente de que o discurso que fará hoje no Katoomba Global Meeting, que começou ontem em Washington (EUA), não será o bastante para o livrar da “nuvem escura” das pressões ambientais que o acompanham, o governador Blairo Maggi afirmou que cooperar com iniciativas em prol do mercado de carbono pode ser uma ferramenta para reduzir o alarde mundial sobre a questão.

“Apesar de tudo, todos sabemos que é preciso mais do que palavras. Somente na conversa nada vai mudar. Embora haja o interesse, quando se fala de colocar a mão no bolso tudo se torna mais difícil. Então também não quero criar expectativas nos produtores”, disse. Maggi criticou a falta de sintonia entre as esferas federal e estadual brasileiras na ação ambiental, e disse que os discursos mundo afora sobre a devastação da Amazônia ainda são carentes de conhecimento.

“Primeiro as pessoas tinham que ter noção do que é a floresta antes de falar. Aqui fora eles falam da Amazônia como se fosse uma ilha, uma área pequena, mas na verdade é 68% do território brasileiro”, afirmou. Ontem ele atendeu jornalistas da imprensa internacional e explicou como funciona a produção agrícola em Mato Grosso e as dificuldades ambientais no controle do desmatamento.

Semanas atrás o jornal The New York Times cogitou a possibilidade de uma intervenção internacional na área e ressuscitou uma antiga polêmica sobre a soberania do governo brasileiro sobre a floresta. Na prática ainda são pequenos os prejuízos causados pela imagem de destruidor que o Estado tem perante o mundo, mas não deixam de incomodar.

“E fácil impedir o desenvolvimento alheio, mas ninguém abre mão de se desenvolver. O que eles querem é achar um culpado para a situação, mas não sou eu. Respondo pelo Estado de Mato Grosso e não por toda a floresta. Não tenho uma carta de poderes dos outros governadores, e nem quero”.

Para ele, a falta de flexibilidade nas discussões impede a abertura de novas áreas mato-grossenses passíveis de serem utilizadas na agricultura e na pecuária. “Existem áreas que podem ser abertas, mas quem vai fazer isso: ninguém discute o assunto. O mundo acha que está errado, então o que acontece é que durante 30 anos todos comeram muito barato e isso vai começar a mudar, pois não se tem área para expandir a plantação. Esse e o preço”, frisou.

Maggi pontuou que é fundamental uma revisão na Medida Provisória que estabelece que 80% da propriedade rural no bioma florestal precisam ser mantidos intactos. “Há anos funcionava assim. Isso foi modificado sem uma discussão pertinente e hoje essa discussão se faz necessária. Está na hora de resolver esse assunto”.

Questionado sobre a divergência nos recentes números do desmatamento, ele afirmou que já há uma equipe da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) em campo fazendo a fiscalização in loco. Maggi deixou clara a insatisfação com o descompasso com o governo federal, mas disse que as desavenças com o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, foram sanadas.

“Conversei com o ministro pessoalmente e por telefone e o convidei para ir a Mato Grosso, pois ele precisa conhecer. A visita deverá acontecer em julho. Entre nos dois está tudo resolvido”. Porém Maggi disse não esperar uma postura mais amena do ministro do que mantinha a ex-responsável pela pasta, Marina Silva. “Ele não deve relaxar. O que queremos é apenas um ajuste do que vem sendo feito, pois não há um protocolo de responsabilidades bem divididas sobre a Amazônia e isso emperra as ações”.

Para finalizar a tarde, Maggi compareceu acompanhado da primeira dama, Terezinha Maggi, ao Museu Nacional de Historia Natural, onde o evento está sendo realizado, para fazer o primeiro contato com os organizadores. Ele falará sobre um assunto ainda incipiente, “O Futuro do Carbono”, mas que como ele afirmou, pode ser uma saída para amenizar as tensões ambientais. O programa funcionaria com a concessão de benefícios, principalmente financeiros, a produtores rurais que mantivessem em pé áreas que poderiam ser derrubadas legalmente.

Katoomba Global Meeting 2008 - Blairo Maggi viajou sexta-feira para Washington exclusivamente para participar do encontro. Essa e a 12ª edição do Katoomba, que reúne representantes de várias entidades de todo o mundo para discutir alternativas de desenvolvimento sustentável. As principais ongs do planeta participam das discussões, como por exemplo, The Nature Conservancy, Greenpeace e WWF. O evento é realizado pelo Katoomba Group e Forest Trend, ambos atuantes na área ambiental com o desenvolvimento e projetos de sustentabilidade.

Ambientalista aponta falta de sintonia

De Washington - EUA

O ambientalista David Cleary, da ong The Nature Consevancy, afirmou ontem que Mato Grosso é estrategicamente o Estado mais importante do Brasil, mas só tem a perder se o governo estadual não afinar as políticas com a esfera federal, o que revela que até mesmo na comunidade internacional o descompasso é notado.

“O que vemos hoje é apenas uma postura do Estado de Mato Grosso que faz acirrar os ânimos e não resolve nada”, defendeu. Para ele, aumentar a área cultivável na floresta é possível, mas é preciso centrar as ações para fazer estudos e propostas de maneira aceitável para a sociedade e para o meio ambiente.

“No bioma amazônico hoje é preciso manter 80% da área intacta e esse é um assunto que pode sim ser discutido, mas o governo do Estado precisa agir de forma mais sofisticada e criativa. Não é batendo de frente com o governo federal que se obtém êxito, pois queira ou não, a principal fonte de recursos é ele”, criticou. Para Cleary, o governador Blairo Maggi poderia adotar posturas mais amenas e inclusive procurar respaldo das ongs para agir.

“Com certeza apoiaríamos uma discussão que envolvesse toda a sociedade brasileira. Pois, por exemplo, poderia se aumentar algumas áreas de plantação e, em contrapartida, aumentar também outras áreas de preservação em lugares importantes, como a Bacia do Xingu. Tem-se um estereótipo de que os ambientalistas são contra o desenvolvimento, quando na verdade isso não é real. Apoiamos inclusive a obtenção de recursos para o reflorestamento por meio de financiamentos, o que hoje os bancos quase não fazem”, falou Cleary.

Ele frisou que Maggi encontra dificuldades para atuar e que precisa encarar o preconceito por ser um dos maiores produtores de soja do mundo, mas que apesar de falhar em algumas posturas, o governador tem obtido êxito em outras. “Ele faz muitas coisas interessantes, que antes não víamos. Em Lucas do Rio Verde, por exemplo, temos conhecimento de um projeto chamado Lucas Legal, que é muito bom”. O projeto foi criado na gestão do então prefeito, hoje deputado estadual Otaviano Pivetta. (KR)